terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Abraham Palatnik - Em Movimento



Edouard Fraipont





Objeto Cinético K-66, 1966. Palatnik fez estágio em oficinas de motores em Israel, e a partir daí inventou seus próprios aparelhos.

Imagine entrar na sala da casa de um artista consagrado e encontrar lá as peças que, ao longo de sua trajetória, ele resolveu guardar. As razões que o levaram a escolher uma ou outra obra certamente não se resumem à relevância artística, embora esse motivo deva ter sido considerado para algumas delas. As demais podem ter ficado com ele por causa de algo bem pessoal. Ou mais mundano, como a falta de um comprador. O fato é que se estaria diante de um conjunto significativo e de certa forma íntimo do artista. Ocupação Palatnik, em cartaz no Itaú Cultural, em São Paulo, proporciona ao espectador uma experiência assim. Dos 21 trabalhos escolhidos pela curadora Aracy Amaral, feitos entre os anos 40 e 90, 16 são da coleção particular do potiguar Abraham Palatnik, um dos pioneiros da arte cinética (obras que têm o movimento como princípio de estruturação) no mundo.

Logo à entrada está Aparelho Cinecromático, peça de 1949, e que guarda uma história curiosa. A obra foi recusada pelos organizadores da 1ª Bienal de São Paulo, que não sabiam nem como classificá-la. Não era pintura, mas também não era escultura e, seguindo essa lógica rígida, talvez não fosse nem arte. A criação de Palatnik só se juntou às demais selecionadas para que a mostra não ficasse com um espaço vazio, uma vez que a delegação do Japão não enviou seus trabalhos a tempo. O artista radicado no Rio de Janeiro encerrou sua participação na bienal com uma menção honrosa do júri internacional. Já fazia arte cinética na época, mas nem ele tinha consciência disso.

Mais adiante, pode-se ver as páginas de seu caderno de automecânica da Escola Técnica de Montefiori, em Telaviv. Adolescente, Palatnik visitava Israel com a família durante a 2ª Guerra Mundial e acabou tendo de ficar por lá nesse período. Os estágios em oficinas de motores foram fundamentais para, na volta ao Brasil, ele abandonar a pintura figurativa e investir nas composições com movimento. Desmontou ventiladores, montou dispositivos e assim adquiriu repertório para inventar seus próprios aparelhos. Palatnik nunca usou mão-de-obra terceirizada para as suas máquinas. E sempre acreditou que arte e tecnologia andam juntas.

Com um espírito investigador, o artista fez experiências com muitos materiais ao longo desses cinqüenta anos. A exposição, com relevos, telas e objetos, não é grande e, portanto, dá para circular pelas salas com calma. Muitas das obras, como Objeto Cinético K-66, têm movimentos lentos, que se revelam aos poucos, e exigem um tempo maior de apreciação. No fim do percurso, não há como não se sentir mais perto do artista.

A EXPOSIÇÃO
Ocupação Palatnik. Itaú Cultural (av. Paulista, 149, São Paulo, SP, tel. 0++/11/2168-1776). Até o dia 10. De 3ª a 6ª, das 10h às 21h; sáb. e dom., das 10h às 19h. Grátis.


Fonte: Bravo!